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De Galápagos à Polinésia Francesa

Deixamos Galápagos na manhã do dia 25 de fevereiro. Saímos sem pressa, pois estávamos cientes que tínhamos pela frente 3100 milhas que nos separavam da primeira ilha da Polinésia Francesa, provavelmente da Baia de Taiohae, na Ilha de Nuku-Hiva. Ainda mudamos o rumo um pouco só para ver de perto a Ilha de Floreana que ficava mais ao sul, onde chegamos logo depois do meio dia, e fomos despertando as tartarugas semiadormecidas, que ao nos verem, davam uma respirada antes de mergulhar e sumir. Queríamos dar mais esta última olhada em terra antes de mergulhar de cabeça na parte deserta do Oceano Pacífico. Sabíamos que tão cedo não veríamos terra de novo.

Eu estava me preparando para atravessar este trecho pela quinta vez, mas nem por isso deixava de me preocupar em cumprir bem todo o planejamento que tinha feito, era uma obrigação do comandante. Mas, sabia que tinha gente ainda mais ansiosa a bordo, que nunca tinha se lançado em um trecho de mar tão deserto. Tínhamos, desta vez pela frente a imensidão do Oceano Pacífico. Desta tripulação, só eu e Osvaldino já tínhamos passado por aqui.

Lembrava como fora das outras vezes. Na primeira volta ao mundo, só teve pouco vento na saída e logo depois pegamos os Ventos Alísios, frescos e constantes, chegando a não precisar regular as velas por pelo menos 15 dias. Desta vez, porém, as coisas estavam bem diferentes. Mantivemos o motor ligado por cinco dias, pois não queria ficar boiando, quase parado no mesmo lugar, em um mar liso e ideal para refletir as estrelas, já que a previsão do tempo dizia estarmos em uma zona de alta pressão estacionaria. Só no dia 01 de março a coisa mudou. Desliguei o motor e o Fraternidade seguiu, dai em diante, seu destino de barco a vela. Foi assim até chegar lá, apenas com pequenas variações.

Antes de começar esta travessia, bem mais longa e afastada de qualquer terra próxima, reuni a tripulação para explicar que teríamos que passar a adotar um novo procedimento de conduta a bordo:

– Banho só salgado. Logo em seguida se enxugar com a toalha para retirar quase todo o sal do corpo. O que restar de sal vai ajudar até a preservar um cheiro bom. Agua doce só para lavar aquelas partes.

-Lavar prato na plataforma de popa, só com água salgada.

-O que sobrar do mingau da manhã, vai para o purê do meio dia ou para a sopa da noite. O que sobrar do meio dia, será dividido para todos, antes de começar a comer o prato novo recém-preparado.

Tínhamos água e comida a vontade, mas expliquei que era um problema filosófico. Podíamos quebrar o mastro e o motor podia dar defeito. Precisávamos ter água e comida para continuar boiando confortavelmente por pelo menos 6 meses, ate conseguirmos chegar em algum lugar com velas improvisadas (aparelho de fortuna) ou receber ajuda.

Para minha surpresa, todos não só entenderam bem, como alguns foram além do por mim determinado. Ninguém reclamou.
Apesar de a viagem durar 24 dias não faltou o que fazer a bordo. Além de trocar turnos, regular velas e preparar as refeições, a turma mergulhou nas leituras. O livro mais badalado foi o de Luc Ferry,” Aprender a Viver”, que temos vários volumes à bordo. Trata da filosofia à luz da mitologia grega, atualíssima, (parece que nada mudou na cabeça do ser humano de lá para cá), onde ele explica que cada ser humano precisa encontrar o seu lugar na face da terra para ser feliz. Cita o exemplo de Ulisses, o herói da Guerra de Troia, que ao voltar para casa recebeu tantas ofertas, até de se tornar imortal, mas preferiu voltar para casa, escolhido por ele como seu lugar. Como continuo navegando, parece que ainda não encontrei o meu. Ou quem sabe, o meu lugar é o próprio caminho. Reli Imortalidade de Milan Kundera, uma obra de arte. Papini fotografava sem parar ou soltava o drone que nos filmava lá de cima, enquanto o barco seguia normalmente, não dando a menor importância ao que acontecia a bordo.

Como o vento este ano vinha sendo mais brando, o genniker passou a dormir em cima, até que entrou uma rajada mais forte e a vela estourou. Não faz mal, vou reparar ela lá no Hawaii.

Pegamos dois dourados, mas a estrela mesmo foi um atum de 85kg bem pesados. Ele deu trabalho, mas foi embarcado e devorado aos poucos. Tudo isto, além de olhar o mar sem parar, cada onda que chegava e se afastava em seguida, cada nuvem no céu, cada rajada de vento, as estrelas no céu e a lua que crescia e depois encolhia não nos deixava sem ter no que pensar. Ainda tínhamos que jogar xadrez todo dia e as vezes o jogo de cartas, quando queríamos matar o tempo, que foi passando e quando chegou o dia 20 de março apareceram as Ilhas de Ua-Huka e depois Fatu-Huku na nossa frente. Reduzimos as velas para não chegar de noite, e na manhã do dia 21 de março, ancoramos na Baia de Taiohae, na Ilha de Nuku-Hiva. Estava feliz por chegar pela quinta vez na Polinésia Francesa. Mas, quem estava chegando pela primeira vez, estava mais feliz ainda. Não só pela ilha, mas por ter saboreado uma fatia boa de oceano.

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